Devir

















































































    Authority

Authority: Sob Nova Direção - Prefácio
de Howard Chaykin

Como a maioria de nós, eu estou freqüentemente na extremidade receptora do que resolvi chamar, na falta de um termo melhor, de “a Síndrome do Encontro às Escuras” – especificamente, a suposição por conta da outra parte (amiga, namorada ou até uma eventual conhecida) de uma compreensão inata dos gostos de uma pessoa, normalmente confirmando um completo e absoluto julgamento injusto das preferências e aversões da dita cuja.

Você sabe o que eu quero dizer. Além da apresentação de um homem, ou mulher, ou até um grupo ou organização que seu amigo insiste que é exatamente o seu tipo – que se revela totalmente entediante, na melhor das hipóteses, ou completamente repugnante, na pior das hipóteses – existem todos aqueles presentes, sugestões e dicas espertas. “Mas você adora jazz... Achei que Kenny G. era o ideal!” ou “Mas você só lê romances de crime... Eu sabia que você tinha de ter esse novo livro do John Grisham”.

Eu sempre sou educado – e graças a um querido amigo em particular, aprendi a descartar esses equívocos indesejáveis das minhas predileções e convicções via o processo de presentear alguém com um presente que ganhei.

E é via essa conversa pra boi dormir que nós chegamos na série AUTHORITY.

Alguns de vocês devem saber que passei boa parte dos últimos anos ganhando a vida no que Hunter S. Thompson chama de a “trincheira de plástico” da televisão. Uma porção de trabalhos foi divertida, um tanto foi cruel e outro tanto foi uma destruição da alma – algo muito parecido com a vida. A ironia da minha carreira televisiva é que – considerando que eu, particularmente, nunca fui associado a gibis de super-heróis como um talento dos quadrinhos – todos os trabalhos que fui capaz de criar para a TV foram séries de super-heróis. É do feitio da TV fazer suposições e permanecer fiel a elas – e que se dane o que você realmente pensa das histórias de misteriosos vingadores, com ou sem disfarces, saindo por aí lutando contra o mal sem nenhum motivo aparente além de um desejo inato de fazer o bem. Estamos falando aqui de semanas com oitenta horas de trabalho – uma carreira que consumia tanto tempo que eu tinha de dividir qualquer tempo que sobrasse para as pequenas ocupações da vida como casamento, comer e dormir...

Por isso, eu perdi uma porção de coisas que estavam sendo feitas nos quadrinhos naquela época – em primeira mão, pelo menos. Isso inclui o que Alan Moore estava fazendo para o selo America’s Best Comics, o que Brian Azzarello e Eduardo Risso estavam aprontando em 100 Balas – e o que todas essas diversas mãos estavam tramando em AUTHORITY.

Então, um executivo com quem eu estava trabalhando em uma dessas séries de televisão mencionadas acima, despertou meu interesse em AUTHORITY. Ele veio com a história de sempre: “Este é o seu tipo de revista em quadrinhos. É o tipo de coisa que você faria se fizesse gibis de super-heróis.”

E voltamos à Síndrome do Encontro às Escuras. Você pode entender por que eu não acreditei naquilo – e por que a revista ficou largada no banheiro do meu escritório durante meses – até que, num sábado, fiquei preso no escritório reescrevendo um roteiro particularmente estúpido de um freelancer. Peguei a revista e li algumas páginas... Lamento dizer que não me lembro de jeito nenhum qual era o episódio ou número – mas basta dizer que fui fisgado na hora.

Para dizer o mínimo, eu nunca tinha lido nenhuma revista em quadrinhos parecida com AUTHORITY. Cresci lendo as coisas do final da era de Mort Weisinger, seguida pela ascendência de Stan Lee – a suposta Era de Prata – uma época cujas sensibilidades ainda servem como exemplo para os gibis de hoje. Existe um motivo pelo qual a velha máxima insiste que a Era de Ouro dos quadrinhos durou doze anos, uma vez que muitas das nossas éticas e convicções são codificadas – para não dizer atrofiadas – quando alcançamos essa idade.

É claro que o universo dos super-heróis teve seus altos e baixos. Mas para cada WATCHMEN existem dez, quinze, uma centena de revistas em quadrinhos banais e entorpecentes apinhadas de coisas auto-referentes sem valor, óbvias e parecidas, e de moral arbitrária e melancolicamente desleal – o tipo de coisa que vermes e criminosos criam para tirar os olhos da sua própria inconsistência.

Você sabe quem você é.

AUTHORITY, por outro lado, é um sopro de ar fresco. Levando muito a sério – ao menos em minha mente – a idéia de que poder absoluto corrompe absolutamente, esses super-heróis simplesmente decidiram que eles sabem mais... e, da minha perspectiva, às vezes, eles sabem e, em outras, não sabem – e, pra mim, isso não é problema nenhum.

Eu não sou do tipo que tem de gostar dos personagens que estou lendo, contanto que sejam interessantes. Por mim, eles podem ser completos escrotos. Pegue o Ripley, de Patrícia Highsmith, por exemplo – um psicopata incorrigível criado por uma mulher que começou sua carreira escrevendo histórias em quadrinhos. Hmmm... Talvez todas essas coisas niilistas que ela escreveu sejam um contra-ataque por ter trabalhado com histórias em quadrinhos.

Mas eu estou divagando.

Quando éramos crianças, todos nós fantasiávamos sobre o que faríamos se tivéssemos superpoderes. Desculpem, senhoras e senhores, mas, se tivesse esses dons, a última coisa que eu faria seria lutar contra o crime. Meu primeiro impulso seria o de pôr ordem na casa nos meus próprios termos – exatamente como os membros do AUTHORITY.

Isso não quer dizer que os membros dessa equipe de seres superpoderosos – não vamos chamá-los de super-heróis – não têm seus corações no lugar certo. Para ser mais preciso, Jack, Apolo, Meia-Noite e os demais acreditam que estão fazendo a coisa certa, mas, ao contrário de tantos super-benfeitores, eles realmente não dão a mínima se qualquer outra pessoa concorda com sua idéia do bem maior.

Não estou dizendo que essa é uma escolha moral que eu faria; mas acredito mesmo que isso soa muito mais verdadeiro do que a merda sentimental que é aceita como narrativa na maioria dos gibis de super-heróis do circuito popular e, francamente, na maioria dos filmes e séries de televisão. Eu não posso te dizer quantas vezes recebi memorandos de executivos que estão simplesmente desculpando criminosos – sem palavras afetadas aqui – que pedem, sem uma pitada de ironia, para tornar a motivação do herói mais altruísta. Ah, faça-me o favor.

Não conheço ninguém da equipe criativa responsável pelas histórias deste livro pessoalmente. Já troquei um ou outro e-mail com Mark Millar (que parece ser um homem perfeitamente adorável), mas a coisa ficou por aí – portanto não existe nenhuma panelinha rolando aqui.

Mas a pergunta continua no ar: AUTHORITY (e, sim, por algum motivo, o nome sempre aparece em letras maiúsculas) é o tipo de gibi que eu faria se fizesse gibis de super-heróis?

Eu não posso dizer especificamente, pois, mesmo adorando a abordagem da série, tenho uma visão global mais, digamos, americana. Mas, dito isso, além, talvez, de um pequeno ajuste da suscetibilidade geopolítica mencionada acima, a única coisa que eu faria seria torná-la mais engraçada – e, talvez, um pouco mais sórdida também.

Mas, calma, esse é só o meu jeito de pensar.


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