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Revisitando
A Era de Prata
Houve
uma época nos quadrinhos de super-heróis
em que tudo era possível. Quando as leis
da física eram completamente ignoradas,
explicações científicas eram
dadas sem nenhum embasamento. Coincidências
assombrosas recheavam cada quadro, cada página.
O que naqueles tempos parecia sério, hoje
soa engraçado, inocente.
Argumentos?
Pois bem, os argumentos iam do mais singelo ao
absurdo total. E o leitor tinha a satisfação
de acompanhar tramas com finais ora surpreendentes,
ora óbvios, nas quais parecia não
haver limites para a imaginação
dos roteiristas. E, em meio a esse pandemônio
de homens de uniformes coloridos envolvidos em
aventuras das mais desvairadas, dois personagens
foram símbolos emblemáticos de toda
essa geração de histórias
tão singulares: Superman e Batman.
Ao leitor
desavisado, estamos falando da Era de Prata, período
de redescoberta dos super-heróis, que teve
inicio na década de 1950. E, ainda que
o álbum que você tem em mãos
seja do Supremo, e não do Homem de Aço,
é praticamente impossível falar
de um sem antes mencionar o outro.
Vejamos um
pouco do que Superman, o último filho de
Krypton, aprontava naquela época não
tão distante: por motivos fúteis,
Clark Kent decidia abandonar a carreira de Superman,
afirmando que era "para sempre". Em
seguida, abria mão de ser o jornalista.
Ao menos, uma vez por ano, era certa a notícia
de sua morte. Sua identidade secreta era posta
à prova regularmente. Ele perdia seus poderes
aventura sim, aventura não. Isso tudo,
além dos problemas provocados por seus
melhores amigos, que freqüentemente ganhavam
superpoderes e arrumavam grandes confusões.
Amigos estes
mais do que conhecidos por todos. A pseudonamorada
Lois Lane estava sempre prestes a descobrir o
segredo de Clark Kent. Para sorte do herói,
ficava no "quase". Jimmy Olsen, o grande
camarada, volta e meia tentava matar o kryptoniano,
ainda que não por vontade própria.
As situações eram reprisadas à
exaustão, mas nem por isso deixavam de
divertir. Esses argumentos faziam tanto sucesso
que até os amigos do Superman tiveram títulos
próprios em bancas.
Isto posto,
falemos do Supremo do "mago bardo" Alan
Moore. Sobre o roteirista britânico, não
há mais o que ser dito. Genial, revolucionou
o gênero dos quadrinhos para adultos etc.
Nas histórias que você acompanhará
a seguir, ele dá continuidade à
releitura que criou para o Supremo, agora com
todo o charme e características marcantes
principalmente dos quadrinhos da Era de Prata.
Nas aventuras
deste álbum, o protagonista, ainda no "presente",
enfrenta diversos desafios numa trama maior, mas
este é o pretexto que faz emergir todos
os elementos da sua vida pregressa.
Há,
então, um festival de homenagens, referências
e citações, que vão das mais
óbvias àquelas que só os
mais fanáticos leitores de quadrinhos perceberão.
É hora de matar saudades da grande amizade
do herói com o Professor Noturno e Crepúsculo,
a garota-prodígio; relembrar as primeiras
aventuras dos Aliados; enfrentar as armadilhas
preparadas pelo terrível Lex Lut... ops...
Darius Dax, arquiinimigo de Supremo.
Não
é só: Ethan Crane esconde sua identidade
secreta com um par de óculos. O leitor
vai se deparar com a Fortaleza da Solidão,
a Zona Fantasma, um sem-número de vilões,
outros tantos amigos, os amores, os clones-robôs
do herói, mascotes, futuro, família,
passado, a cidade de Littlehaven (Smallville ou
Pequenópolis, lembra?) e mais, muito mais,
tudo devidamente rebatizado e adequadamente citado.
Ainda para
deleite dos saudosistas, as histórias do
passado do Supremo têm arte propositadamente
"datada", ao contrário de quando
o herói está no presente, aí
sim com o conhecido estilo da editora Image, com
heróis anabolizados e heroínas gostosonas.
Vale citar
que o marinheiro de primeira viagem, que sequer
ouviu falar das edições antigas
dos super-heróis aqui homenageados, não
precisa ter medo: vai encontrar uma história
bem escrita, cheia de ironia e aventura e um desfecho
pra lá de bacana.
Já
o leitor veterano, que conviveu com essa miríade
de elementos principalmente nas histórias
publicadas nas edições da saudosa
Ebal, terá a oportunidade de se deliciar
com algo mais, e se surpreender diversas vezes
com um inadvertido sorriso no canto da boca, ao
relembrar todo um universo ficcional que garantiu
horas e horas de diversão descompromissada.
Está
presente na fase de Moore à frente do Supremo
toda a inocência da Era de Prata, sem dúvida.
A diferença é a forma como ele amarra
as tramas uma à outra, tornando-as atuais
e "encaixando-as" no jeito de se fazer
quadrinhos de super-heróis adotado nas
duas últimas décadas.
Então,
com o perdão do trocadilho, que você
tenha uma leitura... para o alto e avante!
- Marcelo Naranjo
Editor
do Universo HQ

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