O Dobro de Cinco e agora O Rei do Ponto, porque estes títulos?
Os títulos sempre foram emblemáticos e nunca o que parecem querer dizer. Têm o sentido mais profundo do que aparentam. O Dobro de Cinco foi a primeira aventura deste detetive. O Rei do Ponto é a segunda história e já estou trabalhando na próxima. O aparecimento de Diomedes em uma trilogia, que será fechada em Lisboa. Esta trilogia tem histórias incompletas, é preciso acompanhar as três. Mas estou pensando em fazer aventuras com ele, completas e em álbuns independentes.
Como você escolheu o tipo físico de Diomedes?
Quando o criei fiz a fusão de 3 pessoas: um pouco meu pai, que trabalhou na polícia, um pouco José Lewgoy pelo tipo físico e um pouco Charlie Chan, que interpretava um detetive oriental gordinho de bigode. Achei uma mistura interessante.
Diomedes era um personagem conhecido do público?
Ele é recente, nunca tive um personagem. As outras eram histórias independentes, pegaram um momento da vida de uma pessoa até sua morte. Era uma característica minha: meus personagens sempre morriam no final dos livros e este foi o primeiro personagem que não consegui matar. Tentei matá-lo, mas não foi possível. Já tinha lido a respeito, da dificuldade de autores eliminarem personagens, tanto que achei uma grande besteira e eu não consegui mesmo!
Isso tudo influenciou o nascimento de Diomedes?
Sempre gostei de ler romance policial, como as histórias de Tin Tin. A primeira história - O Dobro de Cinco - era baseada no Tarô e na busca de um mágico. Escrevi um roteiro em que cada capítulo estava relacionado a uma carta do Tarô, dos arcanos maiores. Precisava de um detetive que aparecia só no primeiro capítulo, em segundo plano, para procurar o mágico. Mas ele foi ficando muito forte e, no fim, acabei conduzindo a história pela ótica dele. Acontece que Diomedes é um tipo desqualificado, como detetive, nunca resolve um caso. Na primeira aventura, o final fica aberto a duas possibilidades de interpretação pelo leitor, como no cinema europeu, sem dar a certeza. Ele consegue chegar até o fim, mas os leitores não vêem isso. Já na segunda aventura chega até o fim, mas o caso não é solucionado. O leitor descobre quem é o assassino, que continua cometendo crimes, sem ser preso.
Seu público gosta dele? Qual a faixa etária?
Ele tem um carisma muito grande. Tinha medo que meu público não o aceitasse, mas gostaram muito dele. Geralmente os leitores - e são mais homens que mulheres -, estão acima dos 18 anos. São universitários, ligados mais à literatura que aos quadrinhos.
Fale sobre o processo criativo de suas histórias.
Acho isso fascinante. Tenho uma memória muito boa para estas coisas. Primeiro escrevo o livro inteiro e depois começo a anotar pequenas frases feitas, vou colecionando com o olhar coisas pelas ruas. Geralmente quando acho algo que gosto como um bar, um veículo vou lá e desenho. Em Portugal, onde acontece a próxima aventura de Diomedes, não tive tempo para desenhar e fotografei muito, encontrei muitos lugares para as locações do terceiro livro.
E o convite para o XI Festival Internacional de Banda Desenhada de Portugal?
Esta foi minha primeira participação. Fui convidado pelos organizadores da cidade de Amadora. Conheceram meu trabalho de Histórias Completas através de revistas brasileiras que chegaram lá. O Rei do Ponto, vai para a Portugal na mesma época do lançamento. A distribuição para estas publicações é muito boa e os quadrinhos são muito respeitados ali, ocupam espaços nobres nas livrarias. A cultura de quadrinhos é muito diferente da que existe no Brasil, e o quadrinho europeu é fascinante, muito bom.
Como você define o Diomedes?
Diomedes tem mais de 50 e menos de 60 anos. É um delegado de polícia aposentado que ganha muito mal, por isso trabalha como detetive. Mas é um detetive despreparado, do 3o mundo que nunca resolve um caso. Nesta segunda aventura - O Rei do Ponto - o leitor consegue solucionar o caso, ele não! É um tipo rude, de pouca cultura e se tiver que jogar sujo ele joga! Mas é capaz de ter atitudes no mínimo inesperadas, por exemplo às vezes não consegue atirar, pois acha que apontando uma arma, o cara vai entender e não vai atirar nele. Em outras, pode matar pelas costas, se o cara desacatou um princípio dele ou se falou mal de Deus.
E a vida pessoal dele?
Ele tinha uma mulher, mas ela o deixou. Tem um filho casado e um neto, mas são distantes. Isso não foi mostrado ainda. Com muitas dívidas, aluguel atrasado ele dorme no escritório. Come na rua, bebe e fuma muito. Diomedes vive em contradição e, ao mesmo tempo, tem gestos nobres. Tem pequenos sonhos - fúteis, banais - , mas que não consegue realizar. Se não consegue resolver os casos, muito menos seus sonhos... Acho o ser humano extremamente patético, quis fazer um personagem assim, sofredor, solitário, um cara largado no mundo, sem amigos, que sabe ser um fracasso. Com estas fraquezas até conquista as pessoas!
Porque enfatiza ser um romance policial terceiro mundista!
Meu pai era delegado de Polícia, minha avó trabalhava na polícia, meu irmão é policial, daí conheço um pouco deste lado. Sei o quanto nossa polícia é precária, deficitária e vive no improviso como vive o brasileiro. Então achei legal pegar este lado mambembe, com pessoas despreparadas, como é este detetive.
Você disse já ter o roteiro da próxima aventura de Diomedes
O aparecimento dele em uma trilogia que será fechada em Lisboa. A partir daí estou pensando em fazer sua aventuras em álbuns independentes. Nesta trilogia, para compreender as tramas, o leitor precisa acompanhá-las. A idéia surgiu no final de outubro quando estive em Portugal, participando do XI Festival Internacional de Banda Desenhada de Amadora. A viagem foi tão fantástica, o lugar muito místico e mítico, peguei muitos livros, tirei muitas fotos e decidi escrever a próxima aventura dele lá mesmo!
O que você destaca em O Rei do Ponto?
Diomedes contracena com dois personagens bem distintos, um deles veio do interior e quer crescer a qualquer preço, manipulando pessoas, fazendo chantagem. O outro é sensível, gosta de livros e tem cultura, mas apesar de ter estudado carrega um trauma, tem uma palavra que revela sua condição social: ele fala cunzinha, ao invés de cozinha e fica muito revoltado com isso. Como no primeiro livro, o universo de Diomedes são as zonas urbanas e a periferia. No entanto, as situações não eram localizadas nem no tempo nem no espaço. Em O Rei do Ponto criei uma cidade imaginária num país chamado Braxil, com jornais importantes, como a Folha de San Pablo, que facilitarão seu trabalho. Com a viagem dele para Lisboa, entendi a necessidade dessas condições.
Você acha Diomedes um personagem interessante para o cinema?
Nos quadrinhos existe um movimento inato, o movimento é construído com a seqüência e gosto mais desse tipo de interatividade. A idéia dele se tornar de carne e osso eu acho fascinante, mais que um desenho animado. Faço a estrutura, o enquadramento de minhas histórias, pensando nos ângulos, nos tempos, na direção da câmera em cada cena, como é feito no cinema.

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